domingo, 13 de novembro de 2016


(Monteiro Lobato)


O colocador de pronomes”


Hei de influir em minha época. Aos tagarelos hei de vencer. Fogem-me à férula os maraus de pau e corda? Ir-lhes-ei “empós” filá-los pela gorja... Salta, rumor!
           
E foi-lhes “empós”. Andou pelas ruas examinando dísticos e tabuletas com vícios de língua. Descoberta a “asnidade”, ia ter com o proprietário, contra ela desfechando os melhores argumentos catequistas.
           
Foi assim com o ferreiro da esquina, em cujo portão de tenda uma tabuleta – “ferra-se cavalos” – escoicinhava a santa gramática.

 -Amigo, disse-lhe pachorrentamente Aldrovando, natural a mim me parece que erre, alarve que és. Se erram paredros, nesta época de ouro da corrupção...

O ferreiro pôs de lado o malho e entreabriu a boca.
- Mas da boa sombra do teu focinho espero, continuou o apóstolo, que ouvidos me darás. Naquela tábua um dislate existe que seriamente à língua lusa ofende. Venho pedir-te, em nome do asseio gramatical, que o expunjas.
- ???
         
- Que reformes a tabuleta, digo.
- Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com a licença paga? Estará acaso rachada?
- Fisicamente, não. A racha é na sintaxe. Fogem ali os dizeres à sã gramaticalidade.

O honesto ferreiro não entendia nada de nada.
- Macacos me lambam se estou entendendo o que V. Sª. diz...
- Digo que está aí uma forma verbal com eiva grave. O “ferra-se” tem que cair no plural, pois que a forma é passiva e o sujeito é “cavalos”.
            
O ferreiro abriu o resto da boca.
- O sujeito sendo “cavalos”, continuou o mestre, a forma verbal é “ferram-se” – “ferram-se cavalos”.

-Ahn! respondeu o ferreiro,- começo agora a compreender. Diz V. Sª. que... 
- ... que “ferra-se cavalos” é um solecismo horrendo e o certo é “ferram-se cavalos”.
- V. Sª. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu não sou plural. Aquele “se” da tabuleta refere-se cá a este seu criado. É como quem diz: ferra Serafim cavalos. Isto me explicou o pintor, e entendi-o muito bem.

Aldrovando ergueu os olhos para o céu e suspirou.
- Ferras cavalos e bem merecias que te fizessem eles o mesmo! ... Mas não discutamos. Ofereço-te dez mil réis pela admissão dum “m” ali...
- Se V. Sª. paga...



Comentário: O texto nos mostra a dificuldade de comunicação entre Aldrovando e o ferreiro – utilização de códigos diferentes. Aldrovando utiliza o padrão culto da língua, enquanto o ferreiro utiliza a língua apenas como instrumento de comunicação, não se preocupando com a norma culta. Aldrovando não convence o ferreiro.



Vocabulário:

Férula: palmatória
Maraus: malandros
Pau e cordas: refinados
Empós: atrás
Dísticos: grupo de dois versos; rótulo; divisa; no texto: letreiro 
Filá-los; verbo filar: prendê-los
Gorja: garganta
Paredros: pessoas importantes
Dislate: erro; asneira
Expunjas: verbo expungir: apagues
Eiva: falha
Solecismo: erro de sintaxe

A 18 de abril  de 1822, em Taubaté, nasce José Renato Monteiro Lobato (o segundo nome, depois, foi substituído por Bento) filho de José Marcondes Lobato e Olímpia Augusta Monteiro Lobato.
 


Pronominais (Oswald de Andrade)


Dê-me um cigarro
Mas o bom negro e o bom branco
Diz a gramática
Da nação brasileira
Do professor e do aluno
Dizem todos os dias
E do mulato sabido.
Deixa disso camarada – Me dá um cigarro.

Oswald de Andrade focaliza o mesmo problema – colocação de pronomes – a existência de uma língua popular e uma língua culta. A língua popular prevalece no cotidiano.





13 de novembro de 2016


O reacionário” (Luís Martins)



            Declaro-me peremptória e decididamente contra o progresso. “O progresso – adverte-nos Carlos Drummond de Andrade – nos dá tanta coisa que não nos sobra nada nem para pedir nem para desejar nem para jogar fora. Tudo é inútil e atravancador.” É inútil e atravancador o aparelho de TV, em cores ou descolorido, que matou a conversa caseira, com a interminável novela; é inútil e atravancador o automóvel, que nos cria problemas de estacionamento e não nos leva a parte nenhuma; é inútil e atravancador o telefone, que só nos transmite conversa fiada, enguiça nos momentos mais críticos e exige a nossa atenção nas ocasiões mais impróprias (em geral - , quando estamos no banho); é inútil e atravancador a iluminação feérica das ruas, que nos priva daquilo que segundo o mesmo grande e nobre poeta, “cada um de nós carece numa cidade excessivamente iluminada: uma certa penumbra”. É inútil e atravancador o cérebro eletrônico, que nos priva de pensar. Atravancador e inútil é o veículo motorizado, que nos priva de andar.
            Portanto, senhoras e senhores, desculpai o mau jeito, mas sou contra o progresso. Sou contra a energia atômica, o computador, a futurologia, o “video-tape” e o “striptease”. Sou contra o unissexo, porque penso como meus avós, cada macaco no seu galho.
            Sim. Com muito orgulho, declaro-me um reacionário, um anacrônico, um remanescente de outras eras. Sou contra o câncer, o enfarte de miocárdio e o acidente de trânsito; mas decididamente a favor da enxaqueca, do nó nas tripas e da barriga d’água. Contra o antibiótico, o transplante de coração e o enxerto de rins; mas a favor da sanguessuga, do escalda-pés e da compressa de mostarda.
            Prefiro o alfarrábio ao “best-seller”. O realejo ao transístor. Prefiro o cavalo animal ao cavalo motor. O cachorro frio ao cachorro quente. Prefiro a arte à antiarte. A mão à contramão. Prefiro a lavagem dos pés à lavagem do cérebro. O campo propriamente dito ao campo de concentração. Prefiro o banguê e a liteira ao avião supersônico e ao módulo lunar, Prefiro a lua ao satélite artificial.
            Em suma, senhoras e senhores, prefiro o homem ao robô. Prefiro o meu velho e cansado coração de artérias e músculos, ao mais bacana, sofisticado e aperfeiçoado coração de plástico.


Vocabulário:

Alfarrábio:

1 livro antigo ou velho, de pouca ou nenhuma importância
2 livro velho, ou há muito editado, e que tem valor por ser antigo
3 Derivação: por extensão de sentido.
anotação antiga (mais us. no pl.)
Ex.: disse que ia consultar seus a. para dar uma resposta mais precisa

Peremptório:
adjetivo
1 que perime
2 que é terminante, definitivo, decisivo
3 Rubrica: termo jurídico.
que causa perempção, que torna sem efeito


“O Estado de São Paulo” – 28-9-1972




13 de novembro de 2016


O NAVIO NEGREIRO



(Castro Alves)

1.ª
‘Stamos em pleno mar... Doudo no espaço

Brinca o luar – doirada borboleta –

E as vagas após ele correm...cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...

O mar em troca acende as ardentias

      - Constelações do líquido tesouro...

‘Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...

‘Stamos em pleno mar... Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem?... Onde vai?... Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste Saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!...
Embaixo – o mar... em cima – o firmamento...
E no mar e no céu – a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! Como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! Esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia...
Orquestra – é o mar que ruge pela proa,
E o vento que nas cordas assobia...
...............................................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar – doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu, que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas...
2.ª
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?...
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a noite é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como um golfo veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
Às vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor.
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente
- Terra de amor e traição -
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso
Junto às lavas do Vulcão!

O Inglês – marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou –
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando orgulhoso histórias
De Nélson e de Aboukir.
O Francês – predestinado –
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir...

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga iônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu...
...Nautas de todas as plagas!
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu...
3.ª
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais... não pode o olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador.
Mas que vejo eu ali... que quadro de amarguras!
É canto funeral!... Que tétricas figuras!...
Que cena infame e vil!... Meu Deus! meu Deus! Que horror!
4.ª
Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças... mas nuas, espantadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
...............................................................................
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!...”
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da roda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
5.ª
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar! por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! Noite! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós,
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?... Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...

São mulheres desgraçadas
Como Agar o foi também,
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma – lágrimas e fel.
Como Agar sofrendo tanto
Que nem o leite do pranto
Têm que dar para Ismael...

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram – crianças lindas,
Viveram – moças gentis...
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus...
...Adeus! ó choça do monte!...
...Adeus! palmeiras da fonte!...
...Adeus! amores... adeus!...

Depois o areal extenso...
Depois o oceano de pó...
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! Quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer...

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão...
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cum’lo de maldade
Nem são livres p’ra... morrer...
Prende-os a mesma corrente
-          Férrea, lúgubre serpente –
Nas roscas da escravidão.
E assim roubados à morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
6.ª
E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!...
...Mas é infâmia de mais... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! Arranca este pendão dos ares!
Colombo! Fecha a porta de teus mares!

São Paulo, 18 de abril de 1868.



Vocabulário:

Infantes: soldados
Turba: multidão
Ardentias: fosforescência marítima
Plácidos: tranquilos
Arfar: respirar

Corcéis: cavalos que correm muito

Tasso: Torquato Tasso – poeta romano – autor de “A Jerusalém Libertada”
Nélson: almirante que ficou famoso por derrotar a cidade egípcia de Aboukir
Helenos: segundo a lenda, descendiam de Helen, filho de Deucalião e Pirra
Ulisses: personagem histórico do poema épico de Homero “Odisséia”
Homero: poeta grego – escreveu “Ilíada” e “Odisséia”
Francês: predestinado
Fídias: (Fida) adjetivo poético: fiel – escritor ateniense
Vagas: ondas
Procela: tempestade marítima
Pélagos: mar alto, abismo, profundidade
Ruge: emitir sons de rugidos
Proa: parte anterior do navio
Pávido: assustado
Albatroz: grande ave procelariforme, corpulenta
Gazas: tecido leve e transparente
Leviatã: grande monstro marinho de que fala a bíblia
Bolina: cabo que sustenta a vela que se enverga na carangueja do mastro de ré
Cantilenas: cantigas suaves
Langor: fraqueza
Andaluzas: da Andaluzia (Espanha), habitante de Andaluzia
Louros: glórias, triunfos
Loureiros do porvir: vencedores do futuro
Helenos: gregos (povo que, substituindo a dominação dos Pelasgos, povoaram a Grécia)
Iônia: cidade grega (variante: Jônia)
Plagas: região, país
Tétricas: tristes, fúnebres
Agar: personagem bíblica (teve um filho com Abraão, que se chamou Ismael)
Ismael: personagem bíblica
Luzernas: clarão
Dantesco: cenas horríveis descritas por Dante Alighieri no “Inferno” da sua “Divina Comédia”
Turbilhão: redemoinho de ventos; movimento giratório e forte das águas
Resvala: cai
Tufão: Inundação; dilúvio
Turba: multidão
Algoz: carrasco
Fugaz: rápido, veloz
Audaz: corajoso, ousado
Libérrima: superlativo absoluto sintético de “livre”
Mosqueados: pintados Dom malhas escuras
Alquebradas: abatidas, enfraquecidas
Tíbios: fracos, frouxos
Gentis: graciosas
Choça: cabana
Cadeia: escravidão, cativeiro
Chacal: mamífero feroz da família dos canídeos, vizinho do lobo e da raposa, que vive aos casais nas estepes da África, da Ásia e no sul da Europa
Amplidão: extenso, vasto
Jaguar: animal carnívoro feroz
Irrisão: zombaria
Bacante: sacerdotisa de Baco; mulher devassa
Gávea: mastro que espiga logo acima do mastro real
Impudente: despudorado
Roto: rasgado; esfarrapado
Atroz: desumano; sem piedade
Etérea: sublime; celeste 
 







sábado, 12 de novembro de 2016

USO DO ACENTO INDICADOR  DE CRASE




1. CONCEITOS BÁSICOS


A palavra crase significa “fusão”. Nos estudos de língua portuguesa, crase é o nome que se dá à fusão de duas vogais idênticas. Tem particular importância a crase da preposição a com o artigo feminino a (s), com o pronome demonstrativo a (s), com o a inicial dos pronomes aquele (s), aquela (s), aquilo e como o a do pronome relativo a qual (as quais) – em todos esses casos, a fusão das vogais idênticas é assinalada na escrita por um acento grave ( ` ).

“Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.”


                                         (Fernando Pessoa)



O uso apropriado do acento da crase depende essencialmente da compreensão desse fenômeno.

Como foi dito acima, a crase que se assinala na escrita ocorre entre uma preposição e um artigo ou pronome.

Aprender a colocar o acento consiste, portanto, em aprender a verificar a ocorrência simultânea dessas duas palavras num ponto de cadeia sintática.

Verificar a existência de uma preposição é, antes de mais nada, aplicar conhecimentos de regência verbal e nominal. 


“Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.”


(Fernando Pessoa)

Exemplos:

Conheço a nova professora.
Refiro-me à nova professora.

No primeiro caso, o verbo é transitivo direto (conhecer é conhecer algo ou alguém) – não pode ocorrer crase, portanto. No segundo caso, o verbo é transitivo indireto (referir-se é referir-se a algo ou alguém) – e a preposição é precisamente a: a crase é possível, desde que essa preposição seja seguida por um artigo feminino ou um dos pronomes já especificados.

Para verificar a existência de um artigo feminino ou de um de um demonstrativo a (s) após uma preposição a, podem-se utilizar dois expedientes práticos. O primeiro deles consiste em colocar um termo masculino no lugar do termo feminino sobre o qual se tem dúvida. O surgimento da forma ao denuncia, nesse caso, a ocorrência da crase.

Exemplos:

Conheço o novo professor. 
Conheço a nova professora.

Refiro-me ao professor.
Refiro-me à professora.

Prefiro o quadro azul ao verde.
Prefiro a tela azul à verde.

O segundo expediente prático consiste em trocar o termo regente acompanhado pela preposição a por outro acompanhado por uma preposição diferente (para, em, de, por, sob, sobre) Essa substituição permite perceber claramente se a preposição é ou não seguida de a.

Exemplos:

Refiro-me à nova professora. 

Penso na nova professora. 

Gostamos da nova professora.

Acostumei-me a duvidar. 

Cansei de duvidar. 

Fui punido por duvidar. 

Tudo consiste em duvidar.

2. CASOS QUE MERECEM DESTAQUE

1. A crase obviamente não ocorre diante de palavras que não podem ser precedidas de artigo feminino. É o caso:

a) dos substantivos masculinos:


Exemplos:

Andávamos a cavalo.

Íamos a pé.

Fizemos compras a prazo.

Assisti a jogos memoráveis.

b) dos verbos:

Exemplos:

Não tenho nada a declarar.

Começamos a sofrer.

Chegou a titubear.

Pôs-se a andar.

c) da maioria dos pronomes:

Exemplos:

Diga a ela.

Veio a mim.

Mostrei a vocês.

Entreguei a Vossa Excelência.

Isso não diz respeito a ninguém.

Não me refiro a nenhuma pessoa aqui presente.

Os meninos obedecem a qualquer um de nós.

Pretendo falar a todos.

Pretendo falar a poucas pessoas.

Pretendo falar a alguns amigos.

Pretendo falar a essas pessoas.

Observações

1. Os poucos casos de pronomes que admitem artigo podem ser facilmente detectados pela aplicação dos métodos descritos há pouco:

Exemplos:

Estou-me referindo à mesma pessoa.
Estou-me referindo ao mesmo homem.

Estou-me referindo à própria Luísa.
Estou-me referindo ao próprio Luís.

Comunique o ocorrido à Senhora Garcia.
Comunique o ocorrido ao Senhor José.

Comunique o ocorrido à Senhora Rita.
Comunique o ocorrido ao jovem Pedro.

2. No caso dos pronomes possessivos femininos, a utilização do artigo é optativa; a ocorrência da crase e consequente emprego do acento também o são:


Exemplos:

Refiro-me a minha velha amiga.

Refiro-me a meu velho amigo.

Refiro-me ao meu velho amigo.

Refiro-me à minha velha amiga.


d) de palavras femininas no plural precedidas de um a:

Exemplos:

Dirigi-me a pessoas desconhecidas.

prêmio foi entregue a esportistas aplicadas.

É um assunto relativo a jornalistas especializadas.

Nesses casos, o a é preposição, e os substantivos estão sendo usados em sentido genérico. Quando são usados em sentido específico, os substantivos passam a ser precedidos do artigo as; ocorrerá, então, a crase:

Exemplos:

Esse caso não se aplica a pessoas de índole nervosa




Esse caso não se aplica às pessoas de que estávamos falando.

Você está se referindo a vidas humanas.

Você está se referindo às vidas dos nossos companheiros?

2. Com expressões adverbiais de lugar, deve-se fazer a verificação da ocorrência da crase por meio da troca do termo regente.


Exemplos:

Vou à Paraíba. 

Vim da Paraíba. 

Estou na Paraíba.

Vou à Itália. 

Vim da Itália. 

Estou na Itália.

Vou a Recife. 

Vim de Recife. 

Estou em Recife.

Vou à Recife dos grandes poetas. 

Vim da Recife dos grandes poetas.

Estou na Recife dos grandes poetas.


Observação: Merece destaque o comportamento das palavras casa e terra nessas expressões:

Cheguei a casa. Venho de casa. Estou em casa. (casa designa a residência de quem fala ou escreve)

Cheguei à casa de meus pais. Venho da casa de meus pais. Estou na casa de meus pais.

A tripulação do cargueiro desceu a terra.

A tripulação do cargueiro está em terra. (terra se opõe à noção de “estar embarcado”)

A aeromoça chegou à terra de seus pais.

A aeromoça está na terra de seus pais.


3. O acento indicador da crase é usado nas expressões adverbiais e conjuntivas de que participam palavras femininas.

à tarde
à proporção de
à imitação de
à exceção de
à força de
à toa
à noite
à medida que
à procura de
à semelhança de
à larga
à beça
à direita
às claras
às escondidas
à beira de
à luz
à esquerda
às vezes
às ocultas
à frente de
à sombra de
à revelia
às ordens
às turras



Observações

1. Incluem-se nessas expressões as indicações de horas especificadas:

Exemplos:


à meia-noite   à uma hora   às duas horas   às três e quarenta

Não confundir com as indicações não-especificadas:

Exemplos:

Passei por ali a uma hora morta.
Irei daqui a duas horas.

2. Merece destaque a expressão “à moda de”, que pode estar subentendida:

Exemplos:

Resolveu vestir-se à moda de James Dean.

Fez alguns sonetos à (moda de) Vinícius de Moraes.

Pedimos arroz à (moda) grega.


4. Não ocorre crase nas expressões formadas por palavras repetidas femininas ou masculinas: cara a cara   gota a gota   passo a passo   dia a dia

5. A crase é facultativa diante dos nomes próprios femininos e após a preposição até que antecede substantivos (também o é o caso já apontado dos pronomes possessivos):

Exemplos:

Dei o recado a Maria.   

Dei o recado a João.

Dei o recado à Maria.    

Dei o recado ao João.

Vou até a praia.   


Vou até o parque.

Vou até à praia.   Vou até ao parque.

6. A ocorrência da crase com os pronomes aquele (s), aquela (s) e aquilo depende apenas da verificação da presença da preposição antes desses pronomes:

Exemplos:

Estou olhando aquele jardim. (“olhar” é transitivo)

Estou olhando aquela casa antiga. (direto: não há preposição)

Estou olhando aquilo.

Aludi àquele jardim. (“aludir” é transitivo indireto e pede complemento introduzido pela preposição a)

Exemplos:

Aludi àquela casa antiga.

Aludi àquilo.

7. A crase com o demonstrativo a (s) é detectável pelo expediente da substituição do termo regido feminino por um termo regido masculino:

Exemplos:

Perguntei à que mora ali.   Perguntei ao que mora ali.

Prefiro a da frente à de trás.   Prefiro o da frente ao de trás.

O mesmo expediente deve ser usado para detectar a crase com o pronome a qual, as quais:

Exemplos:

A moça à qual devo telefonar.  

O moço ao qual devo telefonar.

As moças às quais devo telefonar.   

Os moços aos quais devo telefonar.

As moças às quais me referi saíram.

Os moços aos quais me referi saíram.


ATIVIDADES

1. Coloque o acento indicador de crase quando for necessário.

a) Comunique nossas decisões as pessoas interessadas.

b) Envie dinheiro a estas instituições beneficentes.

c) Nada posso dizer a respeito disso.

d) Não posso mais comprar a crédito.

e) O presidente afirmou que nada pode fazer a curto prazo.

f) Já fiz minha contribuição a democracia brasileira.

g) O atendimento a pacientes conveniados está suspenso.

h) Não há mais nada a fazer.

i) Trago a vocês as últimas novidades.

j) Diga a Sua Excelência que não tenho nada a acrescentar as palavras que já disse.

2. Proceda como no exercício anterior:

a) Transmita a cada um dos presentes as instruções necessárias a continuidade da sessão.

b) Não vou a festas, não assisto a novelas e não aspiro a grandes posses. Estou fora de moda.

c) Diga as pessoas que me procurarem que tive de sair.

d) Vamos a sua casa ou a minha?

e) Vamos a Bahia ou a Santa Catarina nas próximas férias?

f) Fui a Europa, de onde passei a Ásia.

g) Fui a Natal, de onde passei a Fortaleza.

h) Fui a Natal das praias inesquecíveis.

i) Finalmente, chegamos a Florianópolis das quarenta e duas praias.

j) Cheguei a casa tarde da noite ontem.

l) Vários marinheiros preferiram não descer a terra.

m) Fui a velha casa onde passei minha infância.

n) Preciso ir a terra dos meus antepassados.

3. Proceda como no exercício anterior:

a) Não sei por que trazer a baila essas velhas desavenças.

b) Vou-lhe contar algo a boca pequena.

c) Ando a cata de inspiração.

d) A noite, teremos de ficar a espreita.

e) Dobre a esquerda ali adiante.

f) A vítima levara vários tiros a queima roupa.

g) Tente se manter a tona.

h) Vários policiais a paisana observaram a manifestação a procura dos líderes do movimento.

i) A loja estava as moscas quando chegamos, as quatro horas.

j) Não recomendo que você saia a rua a meia-noite.

l) A proporção que o tempo passa, a situação mais se complica.

m) Fique a vontade. Terá tudo de que precisa a mão.

n) Quero um belo peixe a fiorentina.

o) Não é fácil jogar a moda da seleção holandesa de 1974.

p) Dia a dia aumentava a possibilidade de que os velhos inimigos tivessem de debater cara a cara.

4. Proceda como no exercício anterior:

a) prefiro isto aquilo.

b) Entregue tudo aquele homem de quem lhe falei.

c) Transmita aquelas pessoas os meus cumprimentos.

d) A pessoa a que fiz referência não esteve presente a reunião.

e) A pessoa a qual fiz referência não esteve presente a cerimônia.

f) A cantora a cuja voz sempre me refiro virá ao Brasil daqui a dois anos.

g) Diga a moça da direita que está aprovada; a da esquerda diga que terá nova oportunidade no próximo mês.

h) Esta casa é igual a que meu pai fez construir no interior.

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FONTE: 36 LIÇÕES PRÁTICAS DE GRAMÁTICA

AUTOR: ULISSES INFANTE

EDITORA: SCIPIONE



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Sorocaba, 12 de novembro de 2016.